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Plano de contas: como conectar contabilidade e gestão sem criar dois financeiros

Orbit Gestão

Existe uma tentação recorrente em empresas que desejam melhorar sua gestão financeira: abandonar a estrutura contábil e criar um modelo próprio, supostamente mais simples e mais gerencial.

A justificativa parece razoável.

“A contabilidade precisa de um plano de contas detalhado, mas eu só quero saber onde estou ganhando ou perdendo dinheiro.”

O problema é que essa decisão pode criar duas versões da mesma empresa.

De um lado, a estrutura contábil.

Do outro, a estrutura financeira interna.

Quando os dois mundos deixam de conversar, surgem conciliações manuais, classificações incompatíveis e discussões sobre qual número representa melhor a realidade.

A alternativa mais consistente não é escolher entre visão contábil e visão gerencial.

É construir camadas.

O plano de contas oferece a estrutura.

Os centros de custos indicam onde as movimentações acontecem.

As categorias gerenciais mostram como a gestão quer interpretar economicamente essas movimentações.

Entender essa diferença muda completamente a qualidade dos relatórios.

O plano de contas não é apenas uma exigência da contabilidade

O plano de contas organiza a natureza das movimentações financeiras.

Ativos.

Passivos.

Patrimônio.

Receitas.

Despesas.

Ele fornece uma estrutura padronizada para que lançamentos diferentes sejam classificados de maneira consistente.

No treinamento que serve de base para este artigo, existem possibilidades diferentes para iniciar essa estrutura: utilizar modelos existentes, importar um plano disponibilizado pela contabilidade ou construir a organização necessária.

Mas existe uma recomendação importante:

Evitar criar um plano financeiro totalmente independente do plano de contas contábil.

Essa orientação nasce de um problema prático.

Quando a empresa mantém uma classificação interna sem relação com a estrutura utilizada pela contabilidade, perde capacidade de comparação.

A informação operacional deixa de poder ser utilizada diretamente pela área contábil.

E a administração também encontra mais dificuldade para auditar ou conferir aquilo que está sendo produzido externamente.

A discussão, portanto, não é sobre deixar o financeiro “com cara de contabilidade”.

É sobre evitar que a mesma movimentação tenha duas identidades incompatíveis.

Mas onde entra a visão gerencial?

É exatamente aqui que muitas empresas confundem conceitos.

Elas tentam resolver no plano de contas uma necessidade que pertence a outra dimensão.

Se a empresa quer saber quanto Marketing gastou, não necessariamente precisa criar um plano de contas específico para isso.

Ela pode utilizar um centro de custos.

Se deseja consolidar todos os gastos relacionados à aquisição de clientes, mesmo quando surgem em Marketing e Vendas, pode utilizar uma categoria gerencial.

Quando essas dimensões são separadas, a estrutura fica mais flexível.

Um mesmo lançamento consegue responder perguntas diferentes sem a necessidade de multiplicar contas artificialmente.

Plano de contas responde: o que é esta movimentação?

Considere uma despesa com um serviço contratado.

A primeira classificação descreve sua natureza dentro da estrutura contábil.

Essa é a função do plano de contas.

Ele cria consistência.

Do ponto de vista gerencial, no entanto, ainda não sabemos quem utilizou esse serviço.

Nem por que a gestão gostaria de acompanhá-lo.

Por isso, o plano de contas é essencial, mas não suficiente.

Centro de custos responde: onde aconteceu?

O centro de custos introduz uma visão organizacional.

Em muitas empresas, ele acompanha departamentos.

Marketing.

Vendas.

Recursos Humanos.

Operações.

Compras.

Facilities.

Financeiro.

Em outros casos, projetos específicos também recebem seus próprios centros de custos.

Essa classificação permite que uma despesa seja atribuída à unidade que efetivamente a consumiu.

Pense novamente em um produtor de vídeo contratado pela empresa.

A natureza contábil da despesa é uma informação.

O fato de que o gasto pertence a Marketing é outra.

Ao separar essas duas dimensões, a empresa consegue analisar seus custos por departamento sem distorcer o plano de contas.

Categoria gerencial responde: como queremos enxergar isso?

Agora imagine que o vídeo produzido seja parte de uma estratégia de aquisição de clientes.

O centro de custos é Marketing.

Mas a gestão quer consolidar todas as despesas associadas à aquisição, incluindo custos de Vendas.

É aí que uma categoria gerencial como “custo de aquisição de clientes” cria valor.

Ela atravessa os departamentos.

Essa capacidade transversal é justamente o que a diferencia do centro de custos.

A categoria não precisa acompanhar o organograma.

Ela acompanha uma pergunta de gestão.

O exemplo das perdas mostra por que isso importa

Outro exemplo muito útil é a categoria de perdas.

Imagine duas situações.

Na primeira, um produto vence no estoque.

Na segunda, um serviço precisa ser refeito dentro da operação.

Os eventos estão em áreas diferentes.

As classificações contábeis também podem ser diferentes.

Mas, do ponto de vista da gestão, ambos representam perda.

Criar uma categoria gerencial permite consolidá-los.

A empresa passa a saber não apenas quanto cada departamento gastou, mas quanto valor foi destruído por ocorrências que ela classifica como perdas.

Esse tipo de visão ajuda a direcionar discussões muito mais relevantes.

Onde estamos perdendo mais?

Qual tipo de perda é recorrente?

Que área concentra a maior parcela?

O problema está em estoque, processo, qualidade ou retrabalho?

A classificação não resolve o problema.

Mas torna o problema visível.

E aquilo que não é visível dificilmente é gerenciado de forma sistemática.

Inadimplência e cancelamento também podem atravessar a estrutura

A mesma lógica vale para inadimplência e cancelamentos.

Uma empresa pode ter diferentes linhas de produção, serviços ou centros de custos.

Se cada ocorrência for analisada isoladamente, a gestão terá uma visão fragmentada.

Ao criar uma categoria gerencial que consolide determinado fenômeno, passa a acompanhar o comportamento de maneira transversal.

É uma diferença importante.

Departamento é uma dimensão da organização.

Categoria gerencial é uma dimensão da decisão.

Por que criar um plano excessivamente gerencial pode piorar a análise

Quando toda necessidade de análise é colocada dentro do plano de contas, ele tende a crescer excessivamente.

Contas começam a ser criadas para departamentos.

Depois para projetos.

Depois para objetivos.

Depois para tipos de perda.

Depois para campanhas.

O resultado é uma árvore difícil de manter.

Além disso, qualquer alteração organizacional exige mexer na mesma estrutura que deveria manter consistência contábil.

Separar as dimensões é mais inteligente.

Plano de contas para natureza.

Centro de custos para responsabilidade ou localização organizacional.

Categorias para agrupamentos gerenciais.

Projetos, quando aplicável, para a unidade específica de execução.

Dessa forma, uma mesma movimentação pode ser examinada sob diferentes perspectivas sem precisar ser duplicada.

Um lançamento bem estruturado carrega várias respostas

Imagine uma despesa relacionada à produção de uma campanha.

Ela pode carregar simultaneamente:

uma conta contábil;

um centro de custos de Marketing;

uma categoria de aquisição de clientes;

um projeto específico;

um fornecedor;

uma competência;

uma data de vencimento;

um método de pagamento.

Nenhuma dessas informações substitui a outra.

Elas se complementam.

Quando o lançamento é bem classificado na origem, relatórios posteriores deixam de depender da memória de quem registrou a despesa.

E isso é um ganho importante de maturidade.

Sistemas não deveriam depender de pessoas lembrando o contexto de cada lançamento.

O contexto precisa estar registrado.

O orçamento se beneficia diretamente dessa arquitetura

Essa separação também melhora o orçamento.

No fluxo apresentado no treinamento, o orçamento pode ser estruturado por centro de custos e utilizar as contas existentes no plano de contas como referência para a matriz.

Essa ligação é importante porque orçamento e execução começam a compartilhar a mesma linguagem.

Se uma área prevê determinada despesa, o realizado pode ser posteriormente comparado com o planejamento utilizando classificações consistentes.

O orçamento deixa de ser uma planilha isolada.

Ele se conecta à operação.

A gestão consegue então perguntar:

O que planejamos?

O que aconteceu?

Em qual conta ocorreu a variação?

Em qual centro de custos?

Qual categoria gerencial explica o desvio?

É essa cadeia de perguntas que transforma orçamento em ferramenta de gestão.

Rateios tornam a estrutura ainda mais poderosa

Nem toda receita ou despesa pertence exclusivamente a um único centro de custos.

Algumas precisam ser rateadas.

O treinamento demonstra que tanto despesas quanto receitas podem ser distribuídas entre diferentes centros ou estruturas.

Isso é especialmente importante quando um único recebimento reúne entregas diferentes.

O exemplo apresentado é bastante ilustrativo: um cliente pode fazer um único pagamento referente a um conjunto de serviços, enquanto internamente determinada parcela precisa ser atribuída a outra área responsável por parte da entrega.

Para o cliente, existe simplicidade.

Para a empresa, existe precisão gerencial.

Uma única cobrança não precisa significar uma única classificação interna.

A estrutura ideal não é a mais detalhada possível

Existe outro erro importante.

Depois de entender o valor das classificações, algumas empresas tentam registrar tudo.

Criam dezenas de categorias.

Centenas de centros.

Subdivisões excessivas.

Campos que ninguém sabe utilizar.

O resultado é uma estrutura tecnicamente completa, mas operacionalmente inviável.

A melhor arquitetura é aquela que produz informação útil com um nível de detalhamento que a empresa consegue manter.

Toda classificação precisa responder a uma pergunta real.

Se ninguém utilizará determinada categoria para analisar ou decidir algo, talvez ela não precise existir.

O objetivo não é produzir complexidade.

É produzir clareza.

Como decidir entre plano de contas, centro de custos e categoria gerencial

Sempre que surgir dúvida sobre onde colocar uma classificação, três perguntas ajudam.

A primeira:

Estamos tentando definir a natureza financeira ou contábil da movimentação?

Se sim, provavelmente estamos falando de plano de contas.

A segunda:

Estamos tentando identificar qual departamento, área ou projeto é responsável por esse valor?

Se sim, estamos falando de centro de custos ou projeto.

A terceira:

Estamos tentando reunir movimentações diferentes para responder a uma pergunta estratégica?

Nesse caso, a categoria gerencial tende a ser a melhor camada.

Essa lógica simples evita grande parte das distorções.

Financeiro e contabilidade precisam compartilhar uma base inteligível

Quando o financeiro tenta funcionar de forma completamente independente da contabilidade, a empresa acaba pagando um preço operacional.

Alguém precisa reconciliar linguagens.

Alguém precisa converter classificações.

Alguém precisa explicar por que o resultado interno não corresponde ao relatório contábil.

O caminho mais eficiente é manter uma estrutura que preserve a lógica contábil e adicionar sobre ela as dimensões gerenciais necessárias.

Assim, a organização evita escolher entre duas necessidades legítimas.

Consegue atender às duas.

A maturidade financeira aparece na qualidade das perguntas

Uma empresa em estágio inicial costuma perguntar:

Quanto temos na conta?

Uma gestão mais estruturada começa a perguntar:

Quanto gastamos?

Depois:

Onde gastamos?

Depois:

Por que gastamos?

Depois:

Isso estava previsto?

Depois:

Esse gasto produziu resultado?

O plano de contas não responde sozinho a todas essas perguntas.

O centro de custos também não.

A categoria gerencial também não.

O poder está na combinação.

E é exatamente essa combinação que transforma registros financeiros em informação de gestão.

Se hoje seu financeiro possui muitos dados, mas ainda exige planilhas paralelas para descobrir de onde vieram os gastos e qual objetivo eles atendem, talvez não esteja faltando um novo relatório. Pode estar faltando uma arquitetura melhor entre plano de contas, centros de custos e categorias gerenciais.

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